Carro é arte!

Na mira dos paparazzi 

Não consegue estar em Paris para ver uma exposição de fotografias sobre carros para lá de cult? Eu também não, mas não tem problema. O livro sobre a mostra está à venda, e eu comprei e atesto: é de fazer cair o queixo

Assim que tomei conhecimento da exposição Autophoto, na Fundação Cartier para a arte contemporânea, abri um sorriso e, ato contínuo, franzi a testa. Diletante do universo das artes e partidário da tese de que carro é divertido, sim!, imaginei que aquela seria uma oportunidade sem precedentes de estar em contato com essas duas figuras improváveis de andarem juntas — a última vez que o espaço acolheu uma mostra dessa magnitude foi há 30 anos, com a emblemática Hommage à Ferrari. E, melhor de tudo, em Paris, cidade que dispensa apresentações.

Só que nem no meu mais recôndido inconsciente vagava a possibilidade de estar ali durante o período da exposição — de 20 abril a 24 de setembro deste ano. A sensação de frustração só piorou quanto resolvi visitar o site da Fundação Cartier para conhecer um pouco mais do que estava sendo mostrado. Uma pequena porém eficiente galeria com meia dúzia de imagens foi o bastante para eu me dar conta do quão pop era aquele programa (entenda o que eu passei acessando aqui: www.fondationcartier.com).

O carro visto com um olhar artístico, longe das corriqueiras leituras literais e utilitaristas do produto. Vale mais o ambiente em que o automóvel está, o apelo histórico das fotos, o exotismo das poses, a dramaticidade das pessoas envolvidas, o ineditismo dos cenários, em suma, a atitude conta mais que a máquina. Junto e misturado, estética e o mais cultuado símbolo do desempenho, da liberdade, do status social da nossa era.

A cara amarrada começou a se desfazer ao perceber que aquelas beldades desfilavam também pelas páginas de um catálogo, que, viria a constatar, não tinha nada de catálogo (foto abaixo). Trata-se de um belo livro, um livro de arte, sem correr o risco de estar pesando demais na definição. Estão ali, reunidas, mais de 500 imagens de mais de 100 renomados fotógrafos de diferentes épocas (Jacques-Henri Lartigue, Lee Friedlander, Rosângela Renno e Yasuhiro Ishimoto, para citar alguns), em um claro registro de que eles buscavam criatividade e originalidade antes de se permitir colocarem suas câmeras para trabalhar.

Parece suficientemente bom, não?, mas tem mais: textos de especialistas, entrevistas, citações de artistas e uma breve história do design do carro. Tudo a serviço de uma melhor compreensão do que significa o automóvel em termos de estéticos, sociológicos e históricos.

Quando me dei conta de que aquela obra era vendida e entregue no Brasil, já estava começando a sorrir, sem me importar com o valor que iria desembolsar: o equivalente a 200 reais, incluindo as taxas de envio. Sim, um valor relativamente alto para um livro, considerado nossos padrões, mas, com um pedido de desculpa se estou soando perdulário, pelo que intuí, valia cada centavo. Comprei.

Ao receber a encomenda, uns dez dias depois, e abrir o pacote, já estava gargalhando. É um autêntico coffee tabel book, como são chamados aqueles livros de mesa que mesclam luxo e arte em um mesmo corpo, objetos que sempre foram do meu interesse de estudos e profissionais. Me apressei em folhear as páginas. Fiquei surpreso com a proposta editorial ousada. O acabamento é de deixar a gente de receio de folheá-lo. O conteúdo impressiona por reunir o improvável e o inusitado com muita classe e elegância.

Tal qual um registro de dublês de paparazzis, foram flagrados desde estrada solitárias e pistas de competições, passando por automóveis lustrosos, servindo de companhia de famílias em piqueniques, abrigo para casais apaixonados e coadjuvante em set de filmagens (para se ter um a ideia, o Mustang utilizado por Steve McQueen no filme Bullitt está lá, com o “próprio” ao volante), até chegar a improváveis paus velhos, remendados, soterrados, abandonados, decadentes, em uma atmosfera totalmente Blade Runner

Admito que estou pensando bem se vou deixar esta — com um pedido de licença para a hipérbole —  obra de arte à mostra para consultas dos colegas que me visitarem em minha casa. Talvez o carregue ao escritório, para ficar ao alcance dos meus olhos. Ah: confesso que até esqueci de que estava desapontado por não perambular pela cidade-luz, à procura de arte e automóveis teatrais. Sim, belos livros é um dos meus maiores fetiches.

*Este matéria foi publicada, em uma versão reduzida, na edição de julho da revista VIP.

OBS: Não vai para Paris nem comprar o catálogo? Não tem problema. A exposição vem até você. Curta o vídeo abaixo

 

Imagens: https://www.fondationcartier.com/#/en/art-contemporain/2769/press/ maite.perrocheau@fondation.cartier.com

O poder de atração dos livros de mesa

10 de agosto de 2017

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